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100 anos de Horus Vital Brazil: a herança de um psicanalista brasileiro

(por Cristiano Goldschmidt)

Cristiano Goldschmidt (*)

Há nomes que pertencem à história. Outros pertencem ao pensamento. Poucos conseguem habitar simultaneamente esses dois territórios sem que um anule o outro. Ao longo dos últimos dois anos e meio, coordenando um projeto na área educacional e museal, trabalhando ao lado de Liana Brazil — uma das mais importantes profissionais da expografia contemporânea, responsável pela concepção de espaços expositivos em alguns dos principais museus do Brasil e do exterior — fui sendo apresentado, pouco a pouco, à trajetória intelectual e humana de seu pai: Horus Vital Brazil, cujo centenário de nascimento celebramos neste 7 de maio de 2026.

Conhecer Horus por intermédio da memória afetiva e intelectual de sua filha talvez tenha me permitido compreender algo raro: certas biografias não se organizam apenas por sucessão de feitos, mas por continuidade de espírito. Há famílias em que o conhecimento parece atravessar gerações como uma forma de vocação civilizatória. No caso dos Vital Brazil, essa impressão é inevitável.

Vital Brazil Mineiro da Campanha com esposa e filhos. Niterói – RJ, anos 1930. Horus Vital Brazil é o terceiro da direita para a esquerda, sinalizado. Acervo Liana Brazil – Divulgação.

Horus Vital Brazil nasceu em 1926 carregando um sobrenome que já ocupava lugar central na história científica brasileira. Era filho do médico sanitarista Vital Brazil Mineiro da Campanha, uma das figuras mais extraordinárias da medicina nacional. Em fins do século XIX e início do XX, quando o Brasil ainda enfrentava epidemias devastadoras e estruturas sanitárias precárias, Vital Brazil participou das brigadas de combate à febre amarela e à peste bubônica em várias cidades paulistas. Sua atuação integrou aquele momento decisivo em que a ciência brasileira começava a construir instituições permanentes de pesquisa e saúde pública.

Foi nesse contexto que recebeu do governo de Rodrigues Alves uma fazenda (o documento de compra data de 24 de dezembro de 1899) às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo. Ali fundaria o Instituto Serunterápico do Estado de São Paulo, Instituto Butantan desde 1925, instituição que atravessaria o século transformando-se em referência mundial na produção científica e biomédica. 

O nome de Vital Brazil tornou-se internacionalmente conhecido sobretudo pela descoberta da especificidade do soro antiofídico — avanço revolucionário para a medicina tropical — além do desenvolvimento de soros contra picadas de aranha, tratamento para picadas de escorpiões, soro antitetânico e antidiftérico. Mas suas contribuições para a ciência e a medicina brasileiras não pararam por aí. Legou ao filho o amor pela profissão.

O filho voltou-se aos estudos e cuidados da mente

Há algo profundamente simbólico nessa genealogia. O pai dedicou a vida ao enfrentamento dos venenos biológicos que ameaçavam o corpo. O filho voltaria sua inteligência para os impasses invisíveis da mente, para os venenos silenciosos da linguagem, da angústia e do sofrimento psíquico. Ambos, cada um a seu modo, trabalharam nos limites da fragilidade humana.

Entretanto, seria injusto reduzir Horus Vital Brazil à condição de herdeiro de um sobrenome histórico. Sua obra possui densidade própria e independência intelectual inequívoca. Ao longo do século XX, ele se consolidou como uma das vozes mais sofisticadas da psicanálise brasileira, especialmente pela recusa em transformar a teoria analítica numa doutrina rígida ou numa técnica burocrática de interpretação.

Formado pela Faculdade Fluminense de Medicina, em 1949, num período em que a psiquiatria ainda oscilava entre o organicismo clássico e as novas formulações psicanalíticas, Horus construiu uma trajetória singular. Aproximou-se do círculo de Iracy Doyle, responsável pela criação de um espaço de formação analítica menos submetido às ortodoxias institucionais predominantes. Mais tarde, entre 1957 e 1959, aprofundou estudos no William Alanson White Institute, em Nova York, importante centro da tradição interpessoal norte-americana influenciada por Harry Stack Sullivan, Clara Thompson e Erich Fromm.

Horus Vital Brazil em Nova York, onde esteve para período de estudos entre 1957 e 1959. Acervo Liana Brazil – Divulgação.

Essa experiência internacional foi decisiva para sua formação. Horus jamais se acomodou a sistemas fechados de pensamento. Lia Sigmund Freud com rigor, mas também com liberdade crítica. Dialogava com Donald Winnicott, Sándor Ferenczi, Jacques Lacan, Sullivan e a filosofia contemporânea sem jamais aderir integralmente a qualquer escola. Talvez aí resida uma das características mais raras de sua produção intelectual: a capacidade de circular entre tradições distintas preservando autonomia conceitual.

Certificado de participação de Horus Vital Brazil na II Semana Brasileira de Debates Científicos, organizado pelo Centro Acadêmico Sarmento Leite, da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, 1948.

Ainda estudante, Horus veio a Porto Alegre

A passagem de Horus Vital Brazil por Porto Alegre, em 1948, transcende o simples registro de presença acadêmica para assumir o significado de um gesto intelectual profundamente coerente com o seu espírito científico. Ao deslocar-se do Rio de Janeiro até a capital gaúcha para participar da II Semana Brasileira de Debates Científicos, promovida na então Faculdade de Medicina de Porto Alegre pelo Centro Acadêmico “Sarmento Leite”, Horus demonstrava compreender a ciência não como patrimônio regional, mas como empreendimento nacional, construído pela circulação de ideias, experiências e interlocuções. Em um período no qual viajar pelo país implicava longas jornadas ferroviárias, marítimas ou rodoviárias, sua presença revela uma disposição rara de investir tempo, esforço e disciplina em favor da formação intelectual e da troca científica.

O trabalho apresentado, “O curare no trabalho do parto”, também permite entrever um espírito acadêmico atento às fronteiras mais delicadas da medicina de sua época. O estudo do curare, substância associada à farmacologia neuromuscular e ainda cercada de desafios clínicos naquele contexto histórico, exigia não apenas conhecimento técnico, mas coragem investigativa. O fato de a pesquisa ter recebido o 1º Prêmio do Grupo VIII indica que sua contribuição ultrapassou o interesse meramente estudantil, alcançando reconhecimento entre pares e avaliadores num ambiente voltado ao rigor científico. A premiação sugere que Horus Vital Brazil soube articular observação, fundamentação e originalidade em um tema particularmente sensível da prática médica, o que certamente conferiu densidade intelectual aos debates travados durante o encontro.

Certificado Premiação Horus Porto Alegre Debates Curare

Há, ainda, um valor simbólico na memória dessa participação. Eventos acadêmicos frequentemente são lembrados por seus nomes institucionais ou por seus organizadores, mas são trajetórias individuais como a de Horus Vital Brazil que lhes conferem permanência histórica. Sua presença em Porto Alegre representa a figura do jovem pesquisador brasileiro que entendia a universidade como espaço de construção coletiva do conhecimento, em uma época na qual o intercâmbio científico dependia muito mais da determinação pessoal do que da facilidade tecnológica. O certificado recebido em outubro de 1948 não registra apenas uma premiação: ele testemunha uma vocação intelectual marcada pela inquietude, pela busca de excelência e pela convicção de que o avanço da medicina brasileira nasceria justamente do encontro entre diferentes centros de saber espalhados pelo país.

Atravessado por Freud, Ferenczi e Lacan

Em seu percurso, Horus Vital Brazil teve ainda um papel histórico pouco lembrado fora dos círculos especializados: foi um dos pioneiros da introdução do pensamento de Jacques Lacan no Brasil, num momento em que a psicanálise brasileira permanecia majoritariamente vinculada às leituras anglo-saxãs e à tradição mais ortodoxa da International Psychoanalytical Association.

Mas sua importância histórica não se limita à circulação de ideias. Horus inscrevia-se também numa linhagem clínica direta que atravessa alguns dos nomes centrais da história da psicanálise: foi analisando de Clara Thompson; Clara Thompson, por sua vez, foi analisanda de Sándor Ferenczi; e Ferenczi foi um dos mais próximos discípulos e analisandos de Sigmund Freud. Essa continuidade não era apenas teórica, mas profundamente clínica, inserindo Horus numa das vertentes mais vivas e inovadoras da tradição psicanalítica moderna — justamente aquela que buscava preservar, no interior da experiência analítica, a dimensão do encontro humano, da escuta e da singularidade subjetiva.

A própria trajetória de Ferenczi ajuda a compreender a densidade dessa herança. Durante muitos anos, ele ocupou um lugar quase filial ao lado de Freud — não apenas como discípulo brilhante, mas como uma espécie de “filho adotivo” intelectual do fundador da psicanálise. Poucos analistas de sua geração desfrutaram de tamanha proximidade teórica e afetiva com Freud. No entanto, foi justamente dessa intimidade que emergiram algumas das divergências mais decisivas da história da clínica psicanalítica. À medida que aprofundava sua experiência com pacientes marcados por traumas intensos e sofrimentos precoces, Ferenczi passou a questionar os limites da neutralidade técnica defendida por Freud. Enquanto Freud privilegiava uma postura mais abstinente, reservada e interpretativa do analista, Ferenczi desenvolveu formas de escuta mais ativas e implicadas emocionalmente, valorizando a dimensão concreta do trauma, os efeitos da violência psíquica e até mesmo o papel da contratransferência — isto é, os afetos despertados no próprio analista durante o tratamento.

Clara Thompson e Horus Vital Brazil, NY, Estados Unidos, final dos anos 1950. Acervo Liana Brazil – Divulgação

Essas diferenças acabaram produzindo um progressivo afastamento entre ambos. Ferenczi passou a sustentar que certos sofrimentos não poderiam ser alcançados apenas pela interpretação clássica do inconsciente, exigindo uma relação analítica mais sensível às experiências reais de desamparo, humilhação e ruptura subjetiva. Freud, por sua vez, temia que tal flexibilização comprometesse a estrutura técnica da análise. O desacordo não apagou a importância de Ferenczi dentro da tradição freudiana, mas transformou-o numa figura ao mesmo tempo central e incômoda: alguém que permanecia profundamente ligado à origem da psicanálise e, simultaneamente, abria caminhos que escapavam ao modelo ortodoxo então dominante.

Décadas depois, o próprio Lacan retornaria diversas vezes à obra de Ferenczi — ora reconhecendo nele uma intuição clínica extraordinária, ora criticando certos desdobramentos de sua técnica. Ainda assim, o fato de Lacan revisitá-lo constantemente revela o peso duradouro de Ferenczi como uma das consciências críticas internas da tradição psicanalítica. Sua obra permaneceu como um ponto de tensão permanente dentro da história da análise: um lugar onde a psicanálise era obrigada a confrontar seus próprios limites éticos, técnicos e humanos.

Nesse sentido, a formação clínica de Horus ganha contornos ainda mais significativos. Ao ter sido analisando de Clara Thompson — profundamente marcada pela experiência intelectual e clínica ao lado de Ferenczi —, Horus provavelmente recebeu, ainda que de forma indireta, ecos dessa tradição menos rígida e mais atenta à complexidade afetiva da experiência analítica. Não se trata de afirmar uma transmissão linear de conceitos, mas de reconhecer que estilos de escuta, sensibilidades clínicas e modos de compreender o sofrimento humano também se transmitem por meio das próprias experiências de análise. É plausível supor que parte dessa herança ferencziana — mais aberta à dimensão do trauma, da singularidade subjetiva e das ambiguidades da relação analítica — tenha repercutido na maneira como Horus concebia tanto a clínica quanto a reflexão teórica.

É difícil, hoje, medir o impacto intelectual que a chegada de Lacan produziu no ambiente psicanalítico latino-americano. Nos anos 1960 e 1970, sua obra ainda era vista com desconfiança por muitos setores institucionais, seja pela complexidade de sua linguagem, seja pela radical revisão que propunha da herança freudiana.

Horus percebeu cedo a importância daquela inflexão teórica. Mais do que importar conceitos franceses em voga, interessava-lhe a reintrodução da linguagem no centro da experiência analítica. Lacan recolocava em primeiro plano a estrutura simbólica do inconsciente, a dimensão do desejo e a ideia de que o sujeito humano é constituído pela linguagem — temas que encontravam profunda ressonância nas próprias inquietações intelectuais de Horus.

Mas sua aproximação de Lacan nunca foi sectária. Diferentemente de certos ambientes em que o lacanismo acabou transformado em nova ortodoxia hermética, Horus manteve diante da teoria lacaniana a mesma postura crítica e aberta que caracterizava toda sua produção intelectual. Ele não aderiu ao culto da obscuridade nem à repetição automática do jargão conceitual. Ao contrário: procurou traduzir para o contexto brasileiro aquilo que havia de mais fértil na releitura lacaniana de Freud — especialmente a centralidade da linguagem, a crítica do ego psicológico e a compreensão do sujeito como experiência dividida e inconclusa.

Esse movimento teve enorme importância para a psicanálise brasileira. Ao ser um dos primeiros a introduzir e discutir Lacan num ambiente ainda pouco familiarizado com sua obra, Horus ajudou a ampliar o horizonte teórico da clínica psicanalítica no país. Mais do que isso: contribuiu para romper certa tendência provinciana que por vezes limitava o debate analítico brasileiro às disputas internas de escolas tradicionais. Sua interlocução com o pensamento francês abriu caminhos para novas gerações de analistas interessados numa psicanálise menos adaptativa e mais comprometida com a complexidade da experiência subjetiva.

A paixão pela literatura e pela poesia

Mas Horus Vital Brazil não era apenas homem de ciência e teoria. Havia nele um vínculo profundo com a literatura e a poesia (gênero que lia desde a adolescência – em 2004, no fim da vida, lançou Poesias Acontecidas sob o pseudônimo de João Navarro), que atravessava silenciosamente sua formação intelectual. 

Leitor apaixonado, compreendia que a linguagem literária frequentemente alcança regiões da experiência humana inacessíveis ao discurso técnico. Essa intimidade com a literatura conferia à sua escrita uma densidade pouco comum entre autores da área psiquiátrica e psicanalítica. Seus textos muitas vezes possuem ritmo ensaístico, sensibilidade verbal e atenção às ambiguidades da linguagem. Não se tratava de ornamentação erudita, mas de convicção intelectual: Horus sabia que o sujeito humano também se constitui pelas narrativas, metáforas, memórias e imagens que organizam a vida interior.

Talvez venha daí sua permanente resistência às simplificações. A convivência com a literatura o afastava dos reducionismos excessivamente clínicos. Em seus ensaios, percebe-se também a presença de alguém que compreendia a dimensão trágica, contraditória e muitas vezes indecifrável da existência humana. Essa influência literária se refletiria, de diferentes maneiras, na trajetória de sua filha.

Liana Brazil menciona a importância decisiva da formação intelectual recebida do pai – e da mãe, professora com importantes contribuições para a educação no Estado no Rio de Janeiro, mas esse é assunto para outro momento. Seu trabalho expográfico — reconhecido internacionalmente pela sofisticação estética e pela capacidade de transformar exposições em experiências narrativas e sensoriais — parece guardar relação direta com esse universo de pensamento, arte e linguagem cultivado dentro de casa. Em seus projetos, percebe-se justamente uma atenção rara à memória, à experiência humana e à construção simbólica dos espaços. Não por acaso, Liana encontra-se atualmente na etapa final de um documentário de cinquenta minutos sobre a trajetória do pai, com lançamento previsto para agosto deste ano. O filme reúne dezenas de depoimentos e entrevistas realizadas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Nova York, nos Estados Unidos, reconstruindo não apenas a dimensão intelectual do psicanalista, mas também sua presença humana entre colegas, alunos, amigos e familiares.

Esse esforço de preservação da memória possui algo profundamente significativo. Em países de tradição cultural mais sólida, intelectuais dessa estatura costumam ocupar lugar permanente no imaginário público. No Brasil, porém, a memória intelectual frequentemente sofre apagamentos injustos. Recuperar a trajetória de Horus Vital Brazil significa também reafirmar a importância de uma geração que pensou o país e o sujeito brasileiro com densidade, rigor e sofisticação teórica.

Experiência ética da escuta

Em seus ensaios, percebe-se imediatamente uma escrita que não se satisfaz em explicar. Horus escrevia para investigar. Seus textos avançam por aproximações, perguntas, deslocamentos conceituais. Há neles uma inteligência ensaística que lembra certos autores europeus do pós-guerra: uma reflexão que desconfia tanto das simplificações da ciência positivista quanto das seduções retóricas do obscurantismo.

Em tempos nos quais parte da cultura terapêutica contemporânea parece obcecada por diagnósticos instantâneos e soluções rápidas, sua obra permanece com impressionante atualidade. Horus insistia em algo que hoje soa quase subversivo: o sujeito humano não pode ser reduzido à funcionalidade social nem inteiramente capturado pelos protocolos classificatórios da psiquiatria contemporânea.

Sua concepção de psicanálise estava profundamente vinculada à linguagem e à experiência ética da escuta. O inconsciente, para ele, não era mero depósito arqueológico de conteúdos reprimidos, mas campo vivo de relações, ambiguidades e conflitos. Talvez por isso tenha resistido tão firmemente às tentações dogmáticas que frequentemente atravessaram o movimento psicanalítico ao longo do século XX.

Em muitos momentos de sua obra, percebe-se uma preocupação constante com a transformação da psicanálise em aparelho institucional de autoridade. Horus desconfiava das teorias excessivamente satisfeitas consigo mesmas. Defendia que a experiência analítica deveria preservar sempre um núcleo de dúvida. Não a dúvida paralisante, mas aquela que impede o pensamento de endurecer.

Essa postura já aparece de maneira exemplar no artigo Psicanálise em crise (1974) e em livros posteriores como Dois Ensaios entre Psicanálise e Literatura (1992), O sujeito da dúvida e a retórica do inconsciente (1998) e Psicanálise: cem anos depois e outros ensaios (2004). Os títulos já revelam muito. Não há ali qualquer promessa de sistema definitivo. Ao contrário: existe a consciência de que a subjetividade humana excede continuamente os discursos que tentam aprisioná-la.

Capa Cem Anos Depois e Outros Ensaios

Talvez por isso sua escrita continue tão contemporânea. Horus compreendia que a psicanálise não poderia sobreviver como mera repetição litúrgica de conceitos consagrados. Ela só permaneceria viva enquanto preservasse sua potência crítica diante da cultura, da linguagem e das formas de sofrimento produzidas pela modernidade.

Autoridade intelectual sem autoritarismo

Seu trabalho na Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID – da qual foi cofundador) e na revista Tempo Psicanalítico foi igualmente fundamental. Formou gerações de analistas num ambiente intelectual menos hierarquizado, incentivando interlocução crítica e abertura teórica. Muitos de seus alunos relatam justamente essa característica: Horus ensinava sem dogmatizar. Exercia autoridade intelectual sem autoritarismo.

Penso que esse talvez seja um dos aspectos mais difíceis de encontrar hoje. Vivemos uma época marcada pela velocidade opinativa, pela ansiedade das certezas instantâneas e pela necessidade permanente de simplificação. Horus Vital Brazil parecia caminhar na direção oposta. Sua obra nos obriga a desacelerar. Exige leitura cuidadosa. Não oferece conforto intelectual fácil. 

Cem anos após seu nascimento, Horus Vital Brazil talvez permaneça importante justamente porque pertence a uma tradição intelectual cada vez mais rara: a dos pensadores que compreenderam o conhecimento não como instrumento de prestígio, mas como exercício permanente de lucidez. 

Sua trajetória atravessa alguns dos grandes movimentos da história brasileira do século XX — da construção científica simbolizada pela obra de seu pai, Vital Brazil, à consolidação da psicanálise como campo de reflexão sobre a cultura, a linguagem e o sofrimento humano. Contudo, sua singularidade esteve sempre na recusa em transformar a experiência analítica em sistema fechado de pensamento. 

Falecido em 17 de maio de 2005, no Rio de Janeiro, vítima de câncer, Horus preservou até o fim a coragem da interrogação, a abertura ao dissenso e a consciência de que toda teoria sobre o humano deve permanecer menor do que o próprio humano. Talvez seja essa a marca mais duradoura de sua herança intelectual: lembrar-nos de que pensar exige não apenas erudição, mas também humildade diante da complexidade da existência. Num país frequentemente marcado pela fragilidade da memória cultural, celebrar o centenário de Horus Vital Brazil é também reafirmar a importância de intelectuais que fizeram da reflexão crítica uma forma de responsabilidade ética diante do mundo e da vida.

(*) Jornalista e Pedagogo, Mestre em Artes Cênicas pela UFRGS

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